quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Robert McKee Os argumentistas devem algo novo ao público

13.11.2008, Joana Amaral Cardoso

Confirma-se: Hollywood sofre uma crise de conteúdos, vivemos a era dourada da ficção televisiva e Casablanca é ainda o melhor filme de sempre. O que não se sabia é que se Call Girl fosse feito em Hollywood Angelina Jolie era protagonista. Diz Robert McKee, guru do guionismo

Robert McKee, figura maior da técnica de escrita de argumentos norte-americana, viu quatro filmes portugueses antes de chegar a Lisboa, onde está para, pela primeira vez, começar amanhã a leccionar o seu seminário Story. Serão três dias na Escola Superior de Comunicação Social a falar sobre guiões e são mais ou menos os mesmos conselhos que dá desde 1983, depois de um convite do produtor independente Jeff Dowd (que inspirou os irmãos Coen para criar a personagem de Dude Lebowski em O Grande Lebowski) para tornar a sua aula universitária numa prédica itinerante.
A palestra, organizada pela Mixreel, tem estatuto de culto e já teve como alunos David Bowie, John Cleese, Diane Keaton, Lawrence Kasdan, Joel Schumacher, Peter Jackson, Eddie Izzard, Kirk Douglas, Gloria Steinem, equipas inteiras da Pixar ou da Miramax, entre muitos outros. Sentado num hotel no Chiado, fala de cinema português e não aceita os louros pelos prémios alheios. Mas fica lisonjeado com o reconhecimento de ex-alunos, dos quais 27 têm Óscares de Melhor Argumento e mais de 120 têm Emmys. Akiva Goldsman, que recebeu o Óscar por Uma Mente Brilhante (2002) considera-se "um crente". "Ele diz que lhe salvei a vida", recorda McKee, que acha que foi o talento que salvou Goldsman e não aquele seminário.
Espera encontrar mais de 200 pessoas em Portugal (ainda há lugares livres, a 550 euros por cabeça, menos cem euros para estudantes). Inscreveram-se sobretudo jornalistas, criativos de publicidade e equipas de argumentistas, além de alguns realizadores e vão ouvir "uma aula sobre o processo de escrita de dentro para fora, depois de fora para dentro", explicou ao P2. E, ao terceiro dia, falará de géneros, de equilíbrio, cenas, método e de Casablanca. Ah, e sobre adaptação.
(In)adaptado
"Adoro o Charlie Kaufman e ele sempre usou gimmicks (truques)" para fazer avançar as suas histórias, diz, numa resposta à pergunta sobre como as séries de televisão que hoje muito aprecia usam esses esquemas para criar histórias. A porta na cabeça de John Malkovich, a amnésia do casal de O Despertar da Mente, os gémeos argumentistas de Inadaptado. No filme, um deles pede ajuda a McKee, interpretado por Brian Cox, e recorre ao seminário Story para resolver os problemas do seu rascunho.
"Foi um processo colaborativo, não só na construção da minha personagem", recorda McKee, mas também na assistência médica ao guião. Era quase irresistível que McKee olhasse para um argumento e não o escrutinasse. "Houve algumas mudanças no terceiro acto, tinha problemas", resume.
Médico de argumentos, professor de escrita criativa, autor de livros sobre guiões, personagem de Hollywood. Em suma, McKee já tem o seu lugar na cultura popular. "As coisas aconteceram", comenta. Aos 67 anos, continua a ver filmes compulsivamente (os últimos favoritos são o sul-coreano Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera e o sueco Let the Right One In) e só resiste a olhar com raio-X para o filme, à procura do seu esqueleto "se o filme for bom. Torno-me numa criança". Quando são maus, "ao menos aproveito o tempo a analisar tudo".
Há anos, viu dois filmes de Manoel de Oliveira e agora assistiu a Alice (Marco Martins, 2005), Call Girl (António-Pedro Vasconselos, 2007), Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006) e Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes, 2008). Achou que o realizador e argumentista de Call Girl deviam ter escolhido o ponto de vista único da call girl e esquecido os outros quatro (e preconizou que o filme em versão americana teria Angelina Jolie como protagonista) e nos restantes encontrou desejo de aventura e esforço minimalista, mas... "não são muito hábeis". "Se se quer usar uma técnica minimal, tem de haver a certeza de que há um conteúdo tremendo, como no Brokeback Mountain" (ou O Amor é um Lugar Estranho, Morrer em Las Vegas, Confissões de Schmidt, enuncia) e só o encontrou em Alice.
"Como argumentistas, temos uma obrigação para com o público. Pedimos-lhe um grande bocado da sua vida - três horas. É muito, posso jogar uma partida de golfe em três horas. Nesse convite há uma promessa de recompensa. Dar-lhe-ei algo que não tinha antes, fazê-lo pensar, chorar, rir. Vou enriquecer a sua humanidade".
Como um novelo de escrita e condensação do zeitgeist audiovisual, Robert McKee desenrola a sua teoria de que a base do cinema, da ficção televisiva, é o argumento. E ele não tem lugar em Hollywood, "tecnicamente soberbo, mas com um problema de conteúdo. Os filmes são mais uma versão de como o bom vence o mau, efeitos especiais ou comédias mal-educadas (que são divertidas). Não é Beckett." Por isso, nas viagens quer "que o cinema internacional seja maravilhoso". O problema é que as ideias, o rasgo criativo, o espírito político estão na Europa, por exemplo, mas McKee defende que os europeus não dominam a forma, noção base que "está lá para nos levar em profundidade". Já "Hollywood sabe como contar uma história"... Mesmo que seja má. O resultado, esmiúça, é que agora temos uma "retro-garde" em vez de uma avant-garde, "com os jovens a regressar às fórmulas do cinema dos anos 1960". McKee postula que a única maneira de um escritor "se libertar é dominar a forma". Até lá, vai sempre copiar alguém.
A noção de forma, bem como a de "escrever sobre a vida" e a verdade, são basilares nos seminários e livros de McKee. "Viajo pelo mundo, as culturas mudam, as línguas mudam, o que não muda é a vida. E a vida é lixada. E o mais difícil é tirar sentido da vida de forma bela numa história. Porque a vida é tão difícil de expressar de forma significativa, as pessoas recorrem a fórmulas e acabam com clichés", ao invés de serem um verdadeiro "autor". Aquele que "começa com uma visão original, com uma página vazia, cria um mundo, povoa-o com personagens e conta a história. Esse é o único acto original de criatividade. Depois disso, toda a gente é um artista interpretativo".
Por isso mesmo, não contesta a teoria do "cinema de autor", como já se disse sobre ele, mas refuta a ideia de que a autoria seja só do realizador. "Há um caminho natural quando os escritores se tornam realizadores, como o Truffaut, Bergman, Oliver Stone, Woody Allen, Almodóvar, Lawrence Kasdan", enumera. Aí, o realizador termina a obra que começou na página. Os outros, acha McKee, "ou canibalizam romances ou arranjam um argumentista, pagam-lhe pouco para ter uma ideia e depois reescrevem-na".
O filme perfeito
O orador americano, eloquente e um pouco duro no trato, rasga um sorriso quando se fala do seu filme preferido, que já viu centenas de vezes. Casablanca é a obra-prima para McKee, e é analisado em todos os seus seminários. "É um clássico na verdadeira definição, uma obra de arte que é infinitamente revivida com prazer". Dizer que o filme favorito é Casablanca é o maior dos clichés. Será o apelo transversal de Casablanca um dos segredos do seu sucesso? "Pode ser. Tem seis histórias a decorrer. E é maravilhosamente engraçado. O espírito é tão cínico!" Sucede-se uma série de citações de falas do filme e a recordação de que há 30 anos vê diferentes públicos a reagir-lhe. "Adivinhem: está cada vez mais engraçado! As mesmas falas causam gargalhadas que antes não provocavam. O mundo político finalmente acertou o passo com o Casablanca", diz, elogiando os irmãos Epstein, autores do argumento.
Lança o olhar clínico sobre Charlie Kaufman para dizer que ele "não chega à tal profundidade", que hoje se desenvolve mais em televisão. Agora "tenho oito séries para gravar sempre e não há tempo suficiente numa semana para ver toda a qualidade". Há quatro anos, falava aos alunos de uma crise total na ficção que passava pela televisão repleta de reality-shows. Hoje, tece elogios aos Sopranos e Sete Palmos de Terra, segue a "estranha e maravilhosa coisa" que é Calma, Larry, ri-se com Rockfeller 30 e reforça que "os melhores escritores de Hollywood foram para a televisão porque lá têm mais poder", liberdade e tempo. Gosta desse formato que primeiro se estranha e depois se entranha que é o mockumentary (O Escritório, Extras), mas nota-se o desconforto perante o toque insistente dos telemóveis ou a presença de computadores portáteis. E não tem grande respeito pela vaga faça-você-mesmo da cultura YouTube.
McKee também fez a sua perninha em televisão, escrevendo argumentos para Columbo, Kojak e Spencer, For Hire. "Foi como roubar dinheiro", diz sorridente. Pediam-lhe uma ideia-chave e um argumento e depois os restantes escritores trabalhavam-no. Já passou por todas as áreas da ficção mas a sua obra é sobretudo teórica, sendo o mais conhecido o premiado livro Story (35ª edição nos EUA). Tem um romance em permanente desenvolvimento - Fiction - e dois argumentos de cinema que este fim-de-semana serão lidos por produtores (bate na madeira, cauteloso).

Público